quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Asas

O dom de pensar faz-nos livres em essência. Por não o usar tantos eis em penitência.

Gugu Keller

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Terra de Gigantes 2

Nesta terra de gigantes
Somos tão insignificantes
E a juventude sem escola
Pede esmola pra tomar calmantes

Gugu Keller

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Esquina - Capítulo 25

Despreocupado, Gladston abriu a porta do apartamento a assobiar a melodia de um pagode que acabara de ouvir no rádio do seu carro. Não tinha a menor idéia do que iria enfrentar. Mas, um passo adentro, dois, e ele logo percebeu que algo estava errado. Sentada diante da televisão, com o aparelho de dvd e ela ligados mas sem passar nada, Ana Cláudia tinha um semblante ao mesmo tempo deplorável e assustador. Inclinou o rosto um pouco para a direita e olhou para o marido, exibindo-lhe um par de olhos que pareciam haver chorado rios de sangue. Chegando a pensar em morte, ou em algo grave com a filha do casal, ele perguntou já aflito...

- Ana Cláudia? O que foi que aconteceu? Que cara é essa, meu amor?

Devagar, com uma quase frieza logo desmentida por uma lágrima fugidia, ela diz numa voz baixa e quase rouca...

- Oi, Gladston!

Estranhando, ele se mostra mais aflito...

- O quê que aconteceu, Ana Cláudia?!? Pelo amor de deus!!! Por que você está chorando?!?

Ela então sorri um sorriso turvo, que, auto-irônico, mistura-se ao novamente pranto, e continua falando em ritmo pausado, quase como se algum suspense parecesse, diante do golpe que tanto lhe abatera as forças, fazer de algum modo algum sentido...

- O que aconteceu, Gladston?... Nada demais, querido!... - Pausa. - Aconteceu apenas que eu estou sabendo...!

Ele sente um tranco de adrenalina. Passa-lhe pela cabeça mas ele rejeita a idéia. Não, não poderia ser... Como ela saberia?

Qual estudasse um ser estranho, disforme, que estivesse vendo pela primeira vez em sua vida, ela observa a reação dele reage àquela sua fala lenta e pausada. Por pequeno que fosse, infinitamente longe de ser à altura, era como se houvesse naqueles momentos um já troco para o quanto ele lhe fazia sofrer...

- Eu estou sabendo dela, Gladston!

Ele se apavora.

- Dela??? Dela quem, Ana Cláudia??? Do que você está falando???

Pausa. Ela o encara como se lhe desse um tiro na entre-vista.

- Dela! Dele!

Ele tenta não entender...

- Como é que é???

Ela sorri em luto. Do nariz escorre-lhe um catarro líqüido e quente por sobre os lábios e logo queixo.

- Ah! Você não entendeu, Gladston? 

- É claro que não entendi! Você não está falando coisa com coisa! Está tudo bem com a Manoela?

- Está tudo ótimo com a Manoela! Tirando o fato de o pai dela ser um filho de uma puta, um desgraçado de um porco nojento que não merece a família que tem, está tudo ótimo com ela!

Gladston enerva-se de vez.

- Porra, Ana Cláudia!!! Do que você está falando, afinal???

Ana olha. Pensa.

- Que tal você me falar primeiro?

- Mas falar o quê, porra???

- Sobre essa pessoa!

- Que pessoa???

Misturando agora em uma face pétrea o sorriso satisfeito do carrasco sádico com as lágrimas desesperadas do condenado inocente, Ana Cláudia pronuncia o nome bem devagar, fazendo passar como farpas pelo amargo de sua boca de mulher traída em dobro, ou ao quadrado, cada uma daquelas malditas seis letras...

- Andréa!

Gladston estremece de vez. Viciado, contudo, na falsidade, mesmo já tomado do suor e do tremor típicos do pânico, ele ainda tenta o blefe sempre intrínseco na mentira do cínico...

- Ana Cláudia... Pelo amor de deus!!! Você está achando que eu tenho outra mulher?!?

Exalando ódio de seus poros, ela o encara como ao pior dos inimigos, o que não ataca de frente, e, sempre devagar, diz o que o leva ao terror de quem sem esperar perdeu a máscara...

- Não, Gladston! Eu não acho que você tem outra mulher! Como você ouviu bem, eu estou falando de Andréa! E Andréa não é mulher!

Gugu Keller

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Musa

Há por ti no avesso dos meus versos
Um devasso submundo submerso

Gugu Keller

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Esquina - Capítulo 24

Rodrigo não diz nada. Dá as costas para Flávia e, como se tacitamente lhe dissesse para entrar e o seguir, põr-se a andar de volta para o seu quarto. Compreendendo-o, ela fecha a porta por dentro e vem. Ei-lo no quarto com ela a em seguida abraçá-lo por trás e lhe beijar as costas, e a lhe lamber a nuca e a orelha esquerda, e a salivantemente mordiscar-lhe o ombro. Ele então sai dela com delicadeza e, encarando-a carinhoso, diz-lhe enfim...

- Você é bem louquinha, sabia?

Agora não com a boca, mas com os olhos, novamente ela sorri.

- Sim! Sou mesmo! Por você!

Pausa. Ele lhe devolve o sorrir abucal.

- Faz tempo que a gente transa, Flávia... Mas nunca imaginei te ver tocar a minha campainha desse jeito num domingo a esta hora...

- É? Pois foi por isso mesmo eu quis fazer assim...

De soslaio ele olha para o relógio. Cinco para as onze.

- E os teus pais? Não estão em casa?

- Não! Foram à missa!

- Quê???

- É! Eles sempre vão à missa aos domingos neste horário...!

Pausa. Ele a olha bem no fundo dos olhos castanhos, com que, marota, ela continua a lhe sorrir. Ele meio que murmura...

- Não acredito nisso... Missa aos domingos...?

Ela levanta de novo a camisola. Como se agora, ele o atina, sorrisse-lhe com a vagina, provoca...

- Meninas sapecas costumam ter pais religiosos! - E, levando-lhe em seguida a mão direita à sunga sobre o pênis, enquanto com a esquerda ainda segura a camisola a exibir a ruiva vulva, diz-lhe enfim peremptória... - Vem!

Mas, sempre com delicadeza, Rodrigo segura a mão dela e a afasta...

- Desculpe, Flávia! Agora não vai dar...

Com dengo e manha, ela insiste novamente o tentando abraçar...

- Ah, meu amor... Não faz assim, vai! Você nunca deixou na mão a tua vizinha favorita...! Por quê que não vai dar?

Pausa. Ele olha para ela e pensa. Decide ser franco...

- Tá! Considerando que a gente é bem íntimo, eu vou ser sincero com você, Flávia...

- Nossa, Rô! Que jeito de falar é esse? Assim você me assusta...

- Mas eu não vou te dizer nada demais... Só vou te falar porque que agora não não vai dar...

Ela se apruma.

- Hum... E por que?

Ele se aproxima mais dela e muda um pouco o tom, como se, agora também com um quê de marotagem, propositadamente invocasse a cumplicidade que há entre eles para dizer o que dirá...

- É que eu acabei de bater uma!

- Quê???

- Isso mesmo que você ouviu! Acabei de bater uma!

- Rodrigo!!! Mas por que não me chamou se você estava assim?!?

- Ah, Flávia! Eu ia saber que você estava a acordada, e disposta a isso, num domingo a esta hora?!?

- Querido... Pra você eu sempre estou disposta!

Pausa. Ele a toca com carinho

- Você é linda, viu? E também é muito querida!

- E se a gente der um tempinho? Quem sabe daqui a pouco...

- Eu vou ter que sair daqui a pouco, Flávia... Pior que tenho um compromisso bem chato... Que tal à noite?

- Hum... À noite sou que não posso! Tenho que ir com os meus pais na minha avó...

- Ah, tá! Bom... Quem sabe amanhã, então...

Flávia pensa rápido. Decide. Anima-se.

- Já sei!

- O que?

Ela vai nele e o beija na boca. Três segundos. Depois ordena...

- Fecha os olhos!

- Fechar os olhos? Pra quê?

- Fecha!

Ele faz o que ela pede. Rápida, ela tira a camisola e a sandália que usa e se deita na cama dele com as pernas abertas, escancaradas, a vagina literalmente arreganhada na direção de Rodrigo.

- Pode abrir!

Ele abre os olhos e dá com aquilo. Exclama...

- Flávia!?!

De novo ela ordena...

- Vem!

- Mas eu não acabei de te explicar, pô?

- Tudo bem! Vem com a boca!

- Com a boca?

- É! Me chupa! Me chupa e me faz gozar! Agora!

Ele dá mais uma olhada de soslaio no relógio. Quase onze horas.

- Sua louquinha!

- Vem, Rodrigo! Chupa a minha boceta!

Gugu Keller

Problemas Técnicos

A forte chuva que caiu ontem em São Paulo fez com que ficássemos sem net entre ontem e hoje aqui no meu prédio, razão por que, pela primeira vez desde seu o início, não consegui postar o capítulo semanal de "A Esquina" na sexta-feira. Peço desculpas a quem ficou esperando. Tudo resolvido, posto-o daqui a pouco...

Gugu Keller

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

50.000

Pois é... Para quem ficou curioso depois do meu post de ontem, fui apurar... O número de mortos em homicídios no Brasil a cada ano foi, na última década, de, em média, 50.000. Obviamente isso inclui apenas os homicídios dolosos, ou seja, não contam os cometidos no trânsito, quase sempre culposos, os 40.000 a que me referi no post anterior. Então, fazendo de novo aquelas contas básicas, temos que, arredondando para baixo, são 196 assassinatos por dia, ou, de novo arredondando para menos, 5,7 por hora, ou seja, a cada 42 horas, menos de dois dias, temos assassinadas em nosso país o mesmo número de vítimas da boate Kiss! E com um detalhe... Sabem quantos desses crimes têm os inquéritos (apenas inquéritos!) concluídos? 8%! Sim, isso mesmo! 8%! Não é maravilhoso? Aproveitemos, então, esses dois últimos dias de carnaval para, como dizia o genial Renato, continuar a "comemorar como idiotas"! Dancemos, pulemos, brinquemos! Qual gostam de dizer os puxadores de trios elétricos, saiamos do chão! Ah! E o comentário no meu post de ontem da minha amiga Mariane Bach me fez pensar também... Quantos serão os brasileiros que morrem de fome a cada ano? Quantas outras boates Kiss? E quantos de nós verdadeiramente nos importamos com isso?

Gugu Keller

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Perfeição 2013

O carnaval sempre me faz pensar no verso de Renato Russo, e creio que, neste momento, em que a festa vem tão próxima aos acontecimentos do Rio Grande do Sul, parece, vinte anos após o lançamento da canção, que ele nunca foi tão atual. Então, refletindo sobre o que ela diz na seqüência, tive a idéia de apurar a quantidade de pessoas que o trânsito mata no Brasil a cada ano. Para quem não sabe, o número - arredondado para baixo! - é de 40.000! Fazendo, a seguir, algumas contas bem básicas, temos que, a cada dois dias e meio, 60 horas, o número de mortos da boate Kiss é facilmente superado! Ou seja, é como se, nestas duas semanas passadas desde a tragédia, ela já tivesse, através do trânsito, acontecido outras seis vezes! E aí, resta-me perguntar... Isso também não é resultado de irresponsabilidades e omissões da mesma natureza das que levaram ao ocorrido em Santa Maria? Mas, no que se refere às autoridades que são por nós tão bem pagas - somos o país com a maior carga tributária do mundo! - para tomar providências minimamente eficazes, quem se importa afinal? Quando, ao contrário do que ocorreu naquele terrível incêndio, a coisa é diluída pelo fato de ocorrer simultaneamente em diversos lugares e situações, não tem o mesmo impacto, não é verdade? Não causa a mesma comoção! É um absurdo muito mais, digamos, assimilável, digerível, quase normal! Não provoca passeatas, missas ecumênicas ou panelaços! Então, como cantava o grande Renato Russo, pelas vítimas daquela tragédia, pelas das outras seis da mesma proporção que nestas duas semanas já ocorreram no trânsito e pelas tantas outras que nele a cada dois dias e meio em números a igualarão, "vamos comemorar como idiotas"! Aliás, qual será a quantidade de pessoas mortas no Brasil anualmente em homicídios e latrocínos?
 
Gugu Keller

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Esquina - Capítulo 23

4 de julho de 2003.

O passar dos meses após a separação da irmã havia feito, o tempo tem esse dom, com que Ana Clara visse um pouco diminuir a sua quase perene preocupação com a possibilidade dela, a irmã, ter sido contaminada pelo hiv. Ana Cláudia, apesar de todo o acontecido, decerto por um compreensível medo, procrastinava em fazer um novo teste, por mais que seu amigo Peninha, desde que soube de tudo com relação a Gladston, permanentemente insistisse na importância de tanto e sempre se prontificasse a, retribuindo a anterior solidariedade, acompanhá-la no refazer o exame. Quanto a Ana Clara, que, por óbvio, com extremo sofrimento ansiava para que aquilo fosse afinal tirado a limpo, esta preferiu, de todo modo, não fazer nenhuma recomendação. Mesmo a torcer fervorosamente por uma decisão positiva da irmã nesse sentido, mantivera-se durante esses meses, seguindo o conselho do dr. Clóvis, calada a respeito. Contudo, com aquela estranha febre que Ana Cláudia vinha apresentando quase que diariamente nas últimas semanas, o pesadelo havia voltado com força total. Ela, Ana Cláudia, consultaria seu clínico geral na próxima terça-feira, dia 8, e, quando fosse a este relatado o motivo de sua semi-recente separação, certamente, cria Ana Clara, ao menos, enfim, o teste seria pedido.

Mas Ana Clara, profissional de extrema ética e competência, sempre conseguia manter-se alheia a tudo isso quando em atendimento. De fato, como se entrasse numa espécie de transe, se em sua sala com um paciente diante de si, o mundo para ela, incluindo até a sua família, ficava do lado de fora. Tanto que, tendo a irmã se separado do cunhado afinal, ela conseguiu, mesmo diante de toda aquela situação, continuar a atender Andréa normalmente, num trabalho que, a poucos dias de completar um ano, vem fazendo muito progresso, com uma espantosa melhora na auto-estima do travesti, que, diga-se de passagem, e Ana Clara, é claro, o sabe, já não mais tem estado ao lado de Gladston, com quem, por motivos que nada têm a ver com Ana Cláudia ou com a sua, de Andréa, soropositividade, ficou extremamente decepcionada.

E particularmente nesta sexta-feira, dia 4, Ana Clara quer estar concentrada em seu trabalho, na medida em que, até por ter tido a agenda bastante cheia, um ano quase após Andréa, que é a mais recente, ter iniciado seu atendimento, ela receberá, numa vaga que se abriu, uma nova paciente, recomendada por um amigo do dr. Clóvis. Às cinco horas da tarde, eis no consultório, diante de Ana Clara, Natália.

- Tudo bem?

- Tudo bem!

Ambas sentadas frente a frente, a terapeuta tem uma ficha sobre uma prancheta em que, como é de praxe no primeiro contato, fará algumas anotações...

- Natália Cristina Lemos Brito! Esse é o seu nome inteiro, certo?

- Exatamente!

- E quantos anos você tem, Natália?

- 30!

- 30 anos... É casada?

- Sou!

- E o nome do seu marido é?

- Fernando!

Ana vai anotando.

- Certo! Fernando... Tem filhos?

- Não!

- E a sua profissão? Você trabalha?

- Sim! Eu sou advogada e trabalho no departamento jurídico de um banco!

Anota.

- Tá! E você já fez algum trabalho de psicoterapia antes?

- Não! É a primeira vez!

- Certo! Então, Natália, eu quero que você fique à vontade para me falar sobre a razão, ou as razões, que te trouxeram aqui... Nós estamos sob sigilo profissional, tá? De modo que qualquer coisa que seja dita, mesmo que você não volte, ficará apenas entre nós!

Pausa. Natália respira fundo. Pela primeira vez depois de um ano, vai falar com alguém sobre aquele sentimento, sobre aquele louco desejo que tanto a corrói por dentro. Felizmente, pelas primeiras palavras trocadas, simpatizou bastante com Ana Clara. Intuitivamente seu coração lhe diz que pode nela confiar.

- Dra.... Eu estou casada há quatro anos e não agüento mais o meu casamento!

- Sei...

- E não é só isso... Eu estou muito apaixonada por outro homem! E com um detalhe, dra.... Este homem por quem eu estou apaixonada é um antigo inimigo do meu marido!

Gugu Keller

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Indefesos

A violência em meio à qual temos vivido, em todas as suas terríveis formas de manifestação, é, em última instância, se pararmos para pensar, uma nefasta espécie de loteria às avessas, a cujo sorteio, triste e inexoravelmente, todos estamos o tempo todo sujeitos.

Gugu Keller

sábado, 2 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A Esquina - Capítulo 22

Eram cerca de 2:45 da madrugada daquele domingo quando Rodrigo foi embora da festa do Dudu. Apesar da surpreendente atitude de Natália de, num dos quartos da mansão, ter-lhe chupado o pênis por quase um minuto, ele percebeu que nada mais ia acontecer entre os dois naquela noite. A uma porque, se ela já parecia um pouco bêbada quando tresloucadamente fez aquilo, agora estava, via-se, de tão alcoolizada, totalmente fora de si. A duas porque Fernando, que de modo estranho quase não se levantou da poltrona onde logo que chegou se aboletou, estava também na festa afinal, e, desgraçadamente, num desses irônicos caprichos do destino, é logo ele, o seu ex-amigo Fernando, o marido dela, Natália. Assim, no referido horário, Rodrigo apanhou o seu carro e, lembrando-se por um momento da intercambista Heather, de quem nunca mais soube sequer se está viva, deixou a festa.

Em virtude do que ouviria do dr. João Silas algumas horas mais tarde, ou seja, ainda naquele domingo, o maldito domingo, Rodrigo nunca mais procuraria por Natália, nem, como no caso de Heather, dela saberia nada por muito tempo, sequer a respeito do grave acidente que sofreria ainda naquela madrugada, na verdade dali a pouco, alguns minutos antes das quatro horas. Em razão do que lhe diria o ex-sogro, com quem estaria por volta das duas da tarde, durante muito tempo Rodrigo ficaria sem ir a festas, como as que Dudu anualmente faz na mansão para comemorar seu aniversário, no início de leão. Sequer o próprio Dudu, o "rei da noite", grande companheiro dos tempos de faculdade, Rodrigo veria por quase cinco anos.

Por morar relativamente perto da mansão, estando o trânsito livre de madrugada na rua Hermann, o melhor caminho, Rodrigo não levou nem quinze minutos para chegar em seu apartamento. Lá, tirou a roupa que usava e vestiu um seu abrigo de moleton boníssimo de se usar para dormir no frio paulistano de julho. Ligou a televisão, zapeou por algum tempo e, sem achar nada interessante, logo a desligou e foi para a cama. Programou o despertador do seu celular para o meio-dia e, exatamente às 3:50, apagou a luz e se deitou. Três minutos depois, teve a impressão de ouvir ao longe uma brecada seguida de uma batida. Ruídos típicos, infelizmente, pensou, da madrugada na grande metrópole. Dez minutos mais e, também ao longe,  ouviu as sirenes que, nesses casos, costumam de certo modo confirmar o acidente, e que a seguir se dissolveram no contínuo rugido urbano que entrava pela janela em parte aberta apesar do frio. Sempre incomodado pelo decerto estressante encontro de logo mais com seu odioso ex-sogro, - o que afinal há de querer o desgraçado a esta altura? - Rodrigo levou quase uma hora para pegar no sono, de que despertou por volta das dez e quinze da manhã, uma hora e quarenta e cinco minutos, portanto, antes de tocar o despertador do celular, com seu pênis a se manifestar num petrificado estado de ereção.

Ainda que Rodrigo algo hesitasse em se masturbar naquele momento, o estado em que ele se encontrava logo se mostrou absolutamente imperativo no contrário. Rendido a si mesmo, pôs-se a manipular o membro e excitar-se ainda mais. Pensou um pouco em Luciana, com quem fizera sexo no fim de semana anterior, em Inah, com quem no anterior ao anterior, e em sua vizinha Flávia, com quem já umas cinco vezes apenas neste mês. Mas Natália logo se impôs. Sim, ele a desejava, e muito mais agora depois daquele momento tão amalucadamente surpreendente. Bêbada, como se disse, ela literalmente o puxou para um dos quartos da mansão e, após duas palavras e um beijo, deixou-se cair de joelhos diante dele e lhe buscou o falo calça afora, para gulosamente o meter em sua boca. A seguir, cerca de um minuto depois, mais surpreendentemente ainda, levantou-se e, parecendo deixar cair uma lágrima, saiu do quarto às pressas sem falar nada. E Rodrigo agora ainda parece sentir aqueles lábios, aquela língua e céu da boca a lhe envolver molhados a sensível mucosa do seu pulsante coração peninsular. A lembrar, pensar, rememorar, Rodrigo se masturba. Vai, vem, vai, vem, vai, vem, vai, vem. "Chupa, Natália! Isso! Chupa, Natália! Isso! Chupa, Natália! Isso!" Quando sente que vem o gozo, ele vai até o banheiro e mira na pia. O fluido quente e branco corre viscoso pelo azul escuro da louça enquanto, de olhos fechados, ele a imagina, Natália, a o engolir. Ao terminar, toma um banho de chuveiro e volta para a cama, disposto a esperar pelo aviso eletrônico agendado para o meio-dia para então se preparar para o tão desagradável encontro. Um pouco antes das onze, entretanto, é surpreendido pelo som da campainha. Levanta-se e vai abrir a porta. Dá com a vizinha.

- Flávia?

- Bom dia, meu querido! Ainda estava dormindo?

- Pra te dizer a verdade, estava acordado na cama... Mas você também acordou cedo para um domingo...!

A bela morena de olhos claros sorri brilhante.

- Pois é... Mas é que eu precisava te entregar uma coisa...

- Me entregar? O que?

Ela levanta dois palmos da curta camisola que usa e, sem calcinha, exibe-lhe convidativamente a vagina desnuda com os pêlos curtos e algo arruivados. E mantem-se sorrindo para ele.

Gugu Keller