terça-feira, 22 de setembro de 2009

Prostitutas

Perto do meu trabalho, no centro da cidade, muitas garotas, algumas já não tão garotas, diariamente e à plena luz do dia, praticam a prostituição. Muitas delas, inclusive, com sua quase típica indumentária, freqüentam o mesmo restaurante de comida "por quilo" onde eu costumo almoçar. Hoje, prestando em algumas delas um pouco de atenção, pus-me a pensar... Por que será que as prostitutas carregam contra si esse tão pesado estigma que faz da profissão delas, ao que consta a mais antiga de todas, a pior qualidade que alguém, ou, sobretudo, a mãe de alguém, pode ter? Em outras palavras, por que será que o pior insulto que, ao menos entre nós, alguém pode receber, ou a pior situação em que alguém eventualmente pode se ver é a de ser um "filho da puta"? Afinal, que mal fazem essas pessoas, em regra extremamente sofridas, a quem quer que seja? O que fazem de tão errado para sofrerem tamanha rejeição? Não roubam, não machucam, não iludem, não enganam ninguém. Imagino, afinal, que seus clientes, e que disso ninguém vai discordar, sabem exatamente o que fazem quando as procuram, não é mesmo? Ou seja, não há na atividade nenhum tipo de golpe ou de engodo contra quem quer que seja. Muito ao contrário, é um contrato claro, cristalino, de interesse de ambas as partes, não acham? E, curiosamente, algumas pessoas ainda as chamam de desonestas...! Muito mais desonestas, ao menos para mim são as moças que se auto-intitulam "de família", termo que, diga-se de passagem, é, no mínimo, de nos ofender a inteligência, e que engravidam propositadamente para "fisgar" um bom partido, no chamado "golpe da barriga"! O que acham os amigos? Hum? Se querem saber, eu já conheci muitas...!
Mas o que quero mesmo dizer, pois foi nisso que pensei quando fiquei a observar hoje as tais garotas, é que eu, absolutamente, não me importaria em ser um filho da puta se a minha mãe tivesse tido que se prostituir para me sustentar, sobretudo num país como o nosso, com tanta injustiça, tanta desigualdade, tanto desemprego, tanto sub-emprego, tanta falta de perspectivas, tanta carência educacional, tantos salários de fome, tanta escravidão disfarçada, tanta hipocrisia social e institucional e por aí vai... Pelo menos, se fosse o caso, minha mãe teria arrumado uma maneira de sobreviver e de me sustentar sem roubar ninguém, sem enganar e, acima de tudo, sem mentir. E querem saber do que mais? Ela teria até, como fazem essas moças que eu hoje observava na hora do almoço, cumprido com um papel social bastante relevante, pois eu acredito, quem quiser, é claro, pode discordar, que elas, as prostitutas, constituem um importante esteio psicológico para muitas pessoas solitárias e angustiadas, sobretudo nas grandes cidades por aí afora. Muito possivelmente, chego a crer, uma grande quantidade de crimes sexuais deixam de acontecer pelo fato delas existirem. Já pensaram nisso os amigos? Sexo é necessidade, ou será que estou falando besteira? O que fariam as pessoas que não têm com quem fazer sexo se não existisse a prostituição? Não, eu não me importaria em ser um filho da puta se minha mãe tivesse tido essa como única opção! Ao contrário, eu me orgulharia de sua coragem e dignidade!
Por outro lado, eu me envergonharia, isso sim, se eu fosse filho de alguma autoridade fiscal ou policial envolvida com extorsão, ou de algum político corrupto que faz propaganda na televisão mostrando suas belas obras pela saúde pública ao mesmo tempo em que os jornais mostram o povo morrendo nas filas ou à espera de uma ambulância, ou de autoridade qualquer que adora falar em princípios democráticos mas que é conivente com a falta de contrapartida aos tantos impostos que neste país se pega, ou com a tortura generalizada nas febens e prisões da vida, e por aí vai... Tipo de gente rara no nosso país, não é mesmo? Nossa! Digo-o com convicção, meus amigos! Como eu preferiria ser um filho da puta a ser filho de alguma figura dessas...!
E é engraçado, né? As prostitutas, que não fazem mal a ninguém, é que são a escória, o lixo humano, a degradação, o pior dos xingamentos, ao passo que essas outras pessoas a que me referi, para mim a verdadeira escória, caminham sobre tapetes vermelhos com pompa e circunstância, são não raro chamados por "excelência" e cercados por sorrisos, apertos de mão e tapinhas nas costas...! Vai entender...!
Será que eu devo escrever aqui que a maior parte das pessoas que encontram na prostituição a única maneira de sobreviver sem caírem no mundo do crime vivem essa situação justamente em conseqüência do modo de agir desses outros a que me referi, os "excelências" da vida? Acho que não, né? Diferentemente daquelas pessoas que, como citei, utilizam expressões como "de família", não quero insultar a inteligência do meu tão bem-vindo leitor dizendo algo tão óbvio...!
Resta-me então, para concluir, registrar meus sinceros parabéns a todos os que, através dos nossos cinco séculos e pouco de história, de algum modo contribuíram para construir esta nossa tão sólida moral. Esta nossa sólida, hipócrita, míope, disforme, invertida, mentirosa e absurda moral. Uma moral que condena as vítimas e felicita os malfeitores. Parabéns! Parabéns mesmo!
Mas, como não custa sonhar, quem sabe um dia, daqui a muito, mas muito tempo, um motorista de caminhão que leve uma fechada de algum "barbeiro", ao invés de pôr a cabeça para fora da janela e gritar "filho da puta", grite assim... "Ô, seu filho de um corrupto"!

Gugu Keller

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