terça-feira, 5 de julho de 2011

Como Seria Bom...

Como seria bom, qualquer noite dessas, de preferência sem camisa para dar uma sensação de peito aberto, gritar com toda a voz o nome dela pela janela do meu quarto... Mas não gritar uma vez só... Gritar várias, muitas, inúmeras, incontáveis vezes... Gritar sem parar, alto, alto, alto, gritar, gritar... Tirar o máximo do que puderem minhas cordas vocais... Gritar com voz, saliva, suor, músculos e lágrimas... Ah, como seria bom... Gritar por minutos, horas, toda a noite... Gritar, gritar, gritar... Só o nome dela... Várias vezes, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo... Os vizinhos? Ah, os vizinhos... Sendo de origem estrangeira, pouco comum entre nós, decerto muitos sequer imaginariam tratar-se aquela palavra por mim tão gritada de um nome de mulher... Não, não o saberiam... E eu gritaria, gritaria e gritaria... Mais e mais e mais sem parar... E logo tocaria o interfone do meu apartamento... E eu, sem camisa à janela a gritar... E chamariam o síndico, esmurrariam a porta, tentariam o telefone, e eu gritando, gritando, gritando, e afinal chamariam a polícia, já que a noite avança e eu gritando... Minha voz até já dá sinais de fraquejar, mas eu tiro forças nem sei de onde e continuo em meus gritos... Meus berros, meus urros, meu som... O nome dela, o nome dela, o nome dela, ela, ela, ela, ela, e de novo, e de novo, e para sempre... A certa altura, afinal, poriam de algum modo a porta abaixo, e entrariam os guardas, revólveres, algemas, lanternas... E eu lá, na janela, gritando, gritando, gritando, sempre aquela mesma palavra, a única de que para mim sobrou ainda algum sentido... Senhor, o que está acontecendo...? E eu apenas gritando o nome dela... Veriam, é claro, então, que o caso não é polícia, mas de hospício... Um chamado pelo rádio e aí vêm eles, além de alguns parentes meus... Já não grito da janela, tiraram-me de lá, mas ainda grito... Tentam me conter, mas eu grito, grito, grito, grito o nome dela... Até que, madrugada já, os enfemeiros, a camisa de força, a injeção... E lá vou eu... Maca, ambulância, ambulatório, psiquiatria, cama... Ah, como seria bom... Enfim estou quieto... Durmo e sonho com meu amor... Meu único e grande amor... Minha voz se foi toda, a garganta desmancha-se em sangue, mas meu coração - ah, meu coração! - hoje enfim mais em paz do que nunca... Ah, como seria bom... Gritar...


Gugu Keller

4 comentários:

  1. Grite, grite sem medir as consequências. As vezes é bom não preocupar-se com as consequências. As vezes é necessário.
    Beijos!

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  2. Ah, sim! Gostaria que desses uma olhada nisso!

    http://2.bp.blogspot.com/-kVr_DlPenyY/ThShTUGaSYI/AAAAAAAAALU/6uZLZuieVjA/s1600/Selo.jpg

    http://2pitadasdesal.blogspot.com/p/meu-selo-pra-voces.html

    Oui, oui. Meio piegas, eu sei! Mas é um modo que encontrei de presenteá-lo pelas tuas palavras maravilhosas!
    Beijos, G.

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  3. Gritar às vezes é a única coisa que nos acalma, e que nos faz sentir perto de alguém que nós queremos. Pensamos: se a gente gritar bastante, será que ele vai me ouvir?

    Querido,me ajuda!? eu to participando de um concurso de escritores, você pode votar em mim? http://www.li3.com.br/clientes/euamoescrever/contos.php?chega-rockstar&p=298 é só clicar no coraçãozinho ^^

    Beijo!
    http://biacentrismo.blogspot.com

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  4. Está esperando o que? Risos. Quando a gente ama... dessa forma... a gente quer gritar para todo mundo ouvir quem é o dono do nosso coração... Ah, o amor não sabe ficar escondido, ele acaba sempre aparecendo... em algum gesto ou alguma palavra (ou gritando mesmo), mas ele aparece... porque ele só quer amar, amar, amar... Beijinhos.

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