domingo, 27 de dezembro de 2009

Minhas músicas - "Greve Geral"

GREVE GERAL

São seis horas da manhã na Central do Brasil
São seis horas por manhã e o prato sempre vazio

Na fala do papa deus não quer o aborto
Mas Nietzsche é do palpite de que deus está morto
Zaratustra, a cara já não assusta ninguém
Tortura nunca mais, sempre coca-cola
Vagas que se abrem na indústria da esmola
Saia da vida, entre na história e tudo bem

Assassino confesso, congresso e prisão
A ordem, o progresso, o cortiço e o lixão

Mas a história muitas vezes inverte os fatos
Jesus pode ter crucificado Pilatos
Lave as mãos com o sangue que vier da TV
Cultura patchwork de leitura fast food
Pátria third world, presidente Robin Hood
Consumismo, neo-liberalismo e poder

O normal é ser anormal
O legal é ser ilegal
A toda essa hipocrisia declare guerra total
Desigualdade imoral
Civilidade fatal
Contra essa demagogia convoque greve geral

Sexo com preservativo o papa já proibiu
Inconsciente coletivo e sociedade civil

Mas papa que é papa só papa papisa
O número dezoito estampado na camisa
Nostradamus, o fim seria menos bestial
A pátria de chuteiras com o pé no tapetão
Clubes decadentes da primeira divisão
Senhor Godot, o tempo acabou, então é tchau

Se alguém houvesse
Se alguém ouvisse
Se alguém soubesse
Se alguém sentisse

Na linha vermelha traficantes fazem blitz
Bacen e Fort Knox, Febem e Auschwitz
Hoje e sempre o vazio onipresente é o que se faz
Mas dízimo promete salvação e muita grana
Hare hare krishna, hare hare rama
Pai nosso, qual é o céu em que estás?

O normal é ser ilegal
E o legal é ser marginal
A toda essa demagogia declare amor afinal
Desigualdade fatal
Civilidade sem qual
Contra a tua hipocrisia convoque greve geral

Toalha

Foi outro dia desses, rememorando-a com alguém a quem eu a tinha contado, que tive a idéia de postar esta história aqui no blog...
Aconteceu já faz um tempinho. Estou no apartamento onde moro há pouco mais do um ano, e essa situação se deu no outro, onde eu morava anteriormente. E é tudo verdade, tá? Não vão pensar que estou inventando...!
É que, naquele prédio onde eu vivia então, as janelas dos banheiros dos apartamentos que ficavam lado a lado no mesmo andar eram muito próximas umas das outras, de modo que, se alguém gritasse ou falasse alto no banheiro do outro apartamento do meu andar, onde morava uma moça, dava para ouvir do banheiro do meu. Pois bem... Um belo dia, estou eu lá no meu banheiro sossegado, quando ouço a vizinha gritar, provavelmente para uma empregada ou diarista...
- Ô, fulana! Pega aí pra mim a toalha de xoxota!
Na hora pensei comigo... "Nossa! será que ouvi direito?" Apurei o ouvido e, como provavelmente a destinatária do pedido tampouco o tinha ouvido bem, veio em seguida em voz ainda mais alta...
- A toalha de xoxota!!!
Fiquei imóvel. Totalmente parado onde eu estava para ver se ainda vinha mais. E então cheguei a ouvir, ainda que agora com menos volume, ela explicando à pessoa que decerto afinal trouxera o solicitado objeto...
- Obrigada! Eu sempre deixo esta toalha pra xoxota! É que esqueci pendurada lá na área...!
E foi isso. Mas o engraçado mesmo era, depois do acontecido, quando eu me encontrava com ela na portaria do prédio ou no elevador, e ela me cumprimentava toda séria...! Eu ficava pensando... "Nossa! Imagina se ela sonha que eu ouvi aquilo..." Ich... E se ela um dia ler este post? Será que vai se lembrar do acontecido e saber que é sobre ela?

Gugu Keller

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Primeiras Impressões de um Suicida

Não, não chegou a doer. Ao contrário, a despeito de todo o sangue espirrado, parede, cama, lençol, cobertor, travesseiro, e não só sangue, mas carne, nervos, miolos, uma disforme massa acinzentada e fragmentos de ossos, a sensação era de um inequívoco alívio. Eu ainda me mexia, pulsava, respirava, suava, mas não, dor não sentia. Aos poucos, muito aos poucos, ia então afinal levantando-me de mim mesmo, e logo já não apenas não sentia o meu corpo, mas de fora dele o observava. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que eu inerte ali ficava, ia-me. É, sim, eu vinha. Intrigante. Como em todos os momentos da minha vida, agora, no último, contradição. Dúvida, dois, dialética, divisão. Aos poucos eu não era mais eu, e, também, e também aos poucos, eu já então era só eu, mas já sem o que de mim em mim mesmo nunca fora.
Subi, subi, subi, subi, subi. Ficava lá o corpo e eu subia. Voava, olhava. Agora já sobre a cama nenhum movimento. Um pulso, outro, mais um, mais outro, e o último. Expiração. Foi-se, fui-me, vim. Dez metros, quinze, vinte, cem, o céu. E lá, sobre a cama, o corpo. Nu apesar do frio, como fiz questão. Vim nu, quis ir nu. Ou, ao contrário, dúvida, dialética, nu fui e nu agora venho. Na mão direita, ao lado da cabeça, a arma quente. O sangue espirrado, parede, cama, janela. Os olhos turvos que não cheguei a fechar. Não sei com certeza se a bala me transpassou. Quer paracer que sim. Talvez haja dela fragmentos entre os ossos. Não sei. Refaço os passos, os últimos momentos. Ela, a bala, ela, a breve carta, a minha nudez, roupas no chão, o gris da tarde invadindo a janela, e eu na cama, e ela, a arma, revólver, dedo, crânio, medo, coragem, tiro, som. Mas não. Dor não. Alívio, lívido, livre, leve. Subindo, subindo, subindo.
Fui, vim, cá afinal estou. E que ninguém por mim sinta qualquer dor. Ou que todos, de algum modo, sintam enfim por mim esta não dor que agora eu sinto. É. Fui, vim, já estou aqui. Sim, consegui.

Gugu Keller

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A Importância do Bom Velhinho

Sempre tendi a pensar que fosse uma coisa errada, absurda até, fazer com que as crianças acreditem em coisas como o Papai Noel. Afinal, conforme elas fossem crescendo e percebendo o quanto se trata de uma história não apenas irreal mas absolutamente cheia de despropósitos, tenderiam, acreditava eu, a perceber que simplesmente zombaram de sua inteligência. Sem grandes delongas, como, por exemplo, uma criança que começa a adquirir um pouco de razão pode entender que há tantas outras crianças morrendo de fome e de outras privações mundo afora, como tanto se vê na TV? Se Papai Noel existisse, bastaria que lhe pedissem pelo natal a necessária provisão, não é mesmo? Sim, o problema da fome estaria resolvido, afinal, certamente, pelo seu espírito tão repleto de bondade, o bom velhinho não lhes haveria de negar tal presente...! Era, enfim, por paradoxos racionais com este, que sempre cri que esse tipo de fábula constituisse algo nocivo para as mentes infantis.
Contudo, amigos, este post é para dizer que, sendo eu um brasileiro, radicalmente mudei de idéia. Sim. Hoje, tendo melhor pensado, acredito piamente que, ao contrário, tal tipo de costume é extremamente saudável para as nossas crianças! Explico...
É que neste nosso país, meus amigos, conforme vamos nos tornamos adultos, deparamo-nos com toda uma estrutura hipócrita e fantasiosa, de falácias e mais falácias, em que, para termos um mínimo de paz de espírito, e até de segurança em sentido próprio, somos obrigados, o tempo todo e cada vez mais, a fingir que acreditamos, como se fôssemos absolutamente estúpidos, ou, no mínimo, ingênuos como crianças em idade de um dígito! Então, por mais que no fundo saibamos que, tanto quanto o Papai Noel, é tudo uma grande mentira, acabamos por, sob pena de uma severa exclusão social, ter que aceitar o fingimento coletivo de que somos, por exemplo, uma democracia, um estado de direito, de que somos uma nação solidária, de que todos somos iguais perante a lei, de que as nossas instituições merecem nossos aplausos, de que o nosso congresso é o templo sagrado da vontade popular, de que temos uma constituição que é minimamente levada a sério, e por aí vai...
Portanto, amigos, que fique aqui registrada, e o faço com sincera humildade, a minha radical mudança de opinião... Ensinemos, sim, nossas crianças a acreditar em Papai Noel! Também, tanto quanto possível, em coelhos da páscoa, saci-pererê e o que mais houver...! Isso lhes fará certamente um enorme bem! Tornar-se-ão, decerto, adultos capazes de conviver bem, como nós tanto temos tão bem convivido, com todas essas mentiras, falácias e hipocrisias a um palmo de nossos narizes, sempre sabendo aceitá-las, acatá-las, muitas vezes até defendê-las, sem que isso, de modo algum, possa causar qualquer sentimento de contradição ou crise de consciência!
Feliz natal! Que o Papai Noel seja a todos abundantemente generoso!

Gugu Keller

domingo, 20 de dezembro de 2009

Minhas músicas - "Ao Teu Colo Colostro Blues"

Dentre tudo o que a natureza criou, nada é mais belo e fascinante do que a mulher! Nada é mais mágico, mais inebriante, mais misterioso do que um corpo de mulher! E nada é mais sublime do que um peito, um peito de mulher! Nada... Do que um lindo peito de mulher...!
Ah, quem me dera...! Ah, os peitos dela...! Ah, onde afinal andará ela...?

 
AO TEU COLO COLOSTRO BLUES

Como é belo um peito de mulher
É o mundo e o mito
Tão singelo jeito de mulher
Como é bonito
É tão lindo um peito de mulher

Teus mamilos, bicos, boca e eu
E eu calado
Teu calor, teu colo me envolveu
Teus beijos, braços
Basto-me em teus peitos de mulher

Como é belo um peito, como é
Fêmea, formas firmes de mulher
Fácil fechecler, teus dois e deus

Eu te toco os seios, toco o céu
Mucosa e dentes
Teus volumes, ventre, um vôo ao léu
Teus lábios quentes
Línguas e saliva, leite e mel

É tão doce um peito, é lindo, é
Curvas, cavas, coisas de mulher
Quero o que vier e os peitos teus

Gugu Keller

Visita ao Cemitério

Ele aproveitou a fria e cinzenta tarde de domingo para ir ao cemitério, localizado num dos limites da cidade que há dentro do seu pensamento, já longe do coração, o bairro mais central. Cruzou o portão de entrada e pôs-se a caminhar pelas floridas e arborizadas alamedas. Sons, só o do vento, o de um ou outro pássaro aqui ou ali, além do dos seus próprios passos.
Ei-lo diante do túmulo. Não chegou a ajoelhar-se ou fazer alguma oração. Não. Limitou-se a ficar ali olhando e refletindo...
Divagou no fato de que, como se via, as seis gavetas já estavam todas ocupadas... Na primeira, ou naquela com que se estreiou o jazigo, a mais baixa à direita, estava, morta já há 25 anos, quando ele tinha 19, aquela sua velha alegria, sua velha empolgação, que por muito tempo permitiu-lhe saber o que fazer de cada minuto de sua vida, livrando-o, então, assim, naqueles bons tempos, do absurdo do tédio que hoje tanto o sufoca. Na segunda, a mais baixa do lado esquerdo, jazia a sua também velha idéia de que a felicidade existia, morta e sepultada seis anos depois, quando ele ia por seus 25. Na terceira, a do meio da direita, falecida havia 14 anos, jazia sua esperança de econtrar alguém que soubesse amar como ele amava, ou como ao menos achava que amava, e ele não pôde deixar de se lembrar de como chovia na tarde daquele doloroso sepultamento... Na quarta gaveta, a do meio do lado esquerdo, lá estava, morta havia pouco mais de dez anos, a sua esperança no ser humano, que também atendia pelo nome de esperança em que a verdade pudesse enfim vencer a hipocrisia, uma morte, aliás, tão sofrida quanto estúpida...! Na penúltima gaveta, a mais alta da direita, descansava, tendo perecido pouco depois da finada anterior, a sua esperança de um mundo melhor, esta uma morte que ele assimilou com um pouco mais de conformismo, pois, quando aconteceu, parecia mesmo, havia já algum tempo, próxima e inevitável... E, enfim, na última gaveta, lá estava, desde o ano anterior, sepultada como as outras para sempre naquele túmulo, a sua razão para viver, para continuar tentando, para ainda insistir no ato já definitivamente insano de respirar...
Ele quase chorou. Mas não. Meio que já havia se acostumado a sofrer sem lágrimas. Ficou apenas afinal pensando, estando como estava o túmulo repleto, sobre onde haveriam de ser sepultados seu corpo e sua angústia, que tudo levava a crer que, não dali a muito, morreriam juntos, na chamada comoriência. Talvez, atinou, morrendo ambos mesmo juntos, corpo e angústia possam juntos ocupar uma só gaveta, o que, naquele seu jazigo familiar, demandaria afinal apenas uma exumação... Mas não. Talvez não faça sentido. Afinal, naquele mesmo cemitério há tantos túmulos ainda livres, tantas gavetas a esperar de braços abertos... E, ademais, naquela sua gigantesca cidade, a do seu pensamento, há ainda tantos outros tão vastos cemitérios...

Gugu Keller

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Suástica

Outro dia, lendo um artigo referente ao chamado neo-nazismo, deparei-me com uma interessante discussão acerca da proibição de qualquer veiculação da suástica, ou cruz gamada, o principal símbolo nazista enfim. De fato, entre nós, a lei 7716/89, em seu artigo 20, prevê como criminosa tal conduta, prescrevendo para ela uma pena de reclusão de dois a cinco anos, além de multa. Aí, fiquei pensando, sabem? Não que eu seja neo-nazista ou simpatizante desse tipo de coisa, mas é que gosto de refletir sobre algumas incoerências que observo... E então pergunto... Quem matou mais em nome de sua causa absurda? A Alemanha nazista de Hitler ou a igreja católica na época da inquisição? Bem... Para quem tem o mínimo de informação, nem preciso dizer a resposta, não é mesmo? Ademais, apenas como mais um elemento, quem foi mais cruel em seu "modus operandi"? Hum? Sei que pode até parecer uma comparação mórbida, mas tendo a pensar que uma câmara de gás em Auschwitz é um pouco menos doloroso do que ser queimado numa fogueira até a morte, não? E aí, amigos, fico sem entender... Por que será que a divulgação, exibição, qualquer veiculação afinal, da cruz católica, não constitui também um crime grave em nossa legislação? Seria o minimamente coerente, não acham?

Gugu Keller

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Minhas músicas - "Guria Gremista"

Apaixonado que sou pela cultura gaúcha, sempre quis compor algo que a enaltecesse e que tivesse o seu estilo musical, incorporando termos típicos e tal...
Um belo dia, muito empolgado, comecei a divagar na idéia e, para minha grande alegria, veio-me à mente uma melodia que pareceu-me ideal para o que eu queria, restando então agora trabalhar numa letra com as expressões "gauchescas" que buscava...
Algo que sempre me chamou a atenção nos costumes que observo no Rio Grande do Sul é o fato de que lá, muito mais do que aqui em São Paulo, as garotas se interessam por futebol, vindo daí, então, a idéia de "Guria Gremista", já que, dos times gaúchos, o Grêmio é aquele com que mais simpatizo...!
Em alguns dias ficou pronta e, modéstia a parte, adorei o resultado! É uma canção que, quer tocando meu violão, quer "à capela" caminhando pela rua, eu adoro cantar...! Sem dúvida, neste meu lado de compositor, tornou-se um dos meus melhores trabalhos...

GURIA GREMISTA

Quando o vento sopra gelado nos pampas do meu coração
É teu, minha prenda, o abraço apertado, és cuia e calor, chimarrão
Quando a névoa aponta ao largo e aporta no peito a dor
É doce em teus lábios o mate amargo que amorna o minuano de amor

Guria, minha estrela guia
Meu sol de um dia azul
Gaúcha de Santa Maria
Gaudéria cria do sul

Se eu da invernada vou na cavalgada que desce o Cassino ao Chuí
À noite sem pilcha, bombacha, o meu corpo acha o achego em ti
Teus gestos, jeitos, teus peitos perfeitos, conceitos de Serra Geral
Guaíba vermelho na tarde que arde num porto-alegrense postal

Gauchinha linda, tão para mim bem-vinda
És o meu amor meridional
Juntos de mãos dadas vamos pela estrada
Da querência amada sem igual

Gauchinha amiga, prenda tri-querida
Dá-me a pista para eu te cabrestear
Deixa eu conquistar teu coração gremista
Matear sulista e te amar

Gugu Keller

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Planos para depois da morte...

Você, que me lê agora, tem planos para depois da sua morte? Sim, isso mesmo! Planos para depois da sua morte, para depois que você se for, partir desta vida, tem algum? Ahh... Acha absurda a pergunta? Pois olhe... Parei para pensar a respeito e percebi que eu tinha vários...! Sim, é verdade! Afinal, todos os meus planos pelos quais eu não fazia nada só podiam ser para depois que eu morrer, não é mesmo? É! Soa pesado mas é a verdade, ou não? Estou, então, tentando mudar...! Sim! Doravante por tudo o que quero eu luto! Eu tento, eu busco, eu procuro, eu me entrego! Já muito para mim foi o contrário, sabe? É, foi! Quase sem perceber, eu ia deixando muitos desejos para o jamais... Mas não, agora nunca mais! Querer sem tentar nunca mais! Posso até não conseguir mas morro tentando! E, olha, sinto-me muito bem com isso, viu? É muito, muito melhor! Pense nisso você também! Ou vai deixar para depois da sua morte? Ou, pior ainda, continuar cometendo esse suicídio passivo de nem tentar?

Gugu Keller

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Epitáfio

Eu sou feito de escrever. Vivo para escrever e escrevo para viver. Escrevo, escrevo, escrevo, escrevo, escrevo. Sou todo letras, sílabas, palavras. Idéias, versos, diálogos, conceitos. Enredos. Além, é claro, do seu contraponto, ler, é praticamente só o que me interessa. Escrevo acordado, escrevo dormindo, escrevo andando, escrevo parado. Escrevo de cabeça e depois digito. Ou me solto a digitar para ter depois na cabeça. Por escrito, experimento, arrisco, ouso. Tento. Nunca desisto. Preciso, devo, necessito. Sim, meio que vivo por escrito. Livros, peças, poesias, canções. Palavras. Ah, como são mágicas as palavras! Eu como palavras, bebo palavras, digiro-as e delas me faço. Eu sou e suo palavras. Água, sal e palavras. Lágrimas. Palavras, olhos, ouvidos, mentes. Expressão. Palavras podem tudo. Tudo se pode em palavras. Tudo se perde em palavras. E eu por elas tudo posso, tudo perco. Tudo enfim se vai de mim.
Mas façam-me, amigos, um favor... Por mais que eu viva, e por mais que enquanto vivo escreva, façam constar no meu túmulo que não escrevi o bastante, ou, ao menos, não tanto quanto gostaria...
Ah, amigos, se eu pudesse escrever para sempre...

Gugu Keller

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Minhas músicas - "A Prece"

Como é bom vivermos no maior país católico do mundo! Afinal, como tal, somos um povo unido, solidário, honesto, mutuamente respeitoso, um povo que sabe compartilhar entre si com total equanimidade todas as benesses com que a natureza tão gentilmente nos presenteia, uma verdadeira nação de irmãos que, como tanto pregou o fundador de tudo, amam-se indiscriminadamente uns aos outros! E, sobretudo, ainda o citando, em total respeito àquela sua advertência em que ele disse "ai de vós, hipócritas!", somos, para decerto seu orgulho se nos estiver olhando, uma pátria sem lugar para qualquer tipo de hipocrisia humana! Como é bom!

A PRECE

Pai nosso que estás no céu
Dá uma olhada aqui pra esta terra
Vosso reino ainda não desceu
Pelo pão se vive em guerra
Os Judas estão por cima
Madalenas por toda parte
Herodes foi pra Suiça
Pilatos deixou saudade
Tende piedade de nós
Tende piedade de nós

Pai nosso que estás aí
Santificado é o vosso nome
Perdoa as nossas dívidas
Ou nós vamos morrer de fome
Roma cruzou o Atlântico
Tibério falando inglês
Barrabás foi inocentado
E já é candidato outra vez
Tende piedade de nós
Tende piedade de nós

E a lágrima cai no calor deste pranto que vem
Em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém

Pai
Afasta de mim este cálice
Pai
Depressa que tá quase tarde
Nos cômodos habitados
Onde a prece alivia a dor
Felizes os convidados
Para a ceia do senhor
Eis o mistério da fé
Eis o Brasil como é

E a lágrima cai no calor deste pranto que vem
Em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém

Gugu Keller